posso fazer uma pergunta?

Guest-post da minha mãe.

“Professora, posso fazer uma pergunta?”

Eis um momento difícil para a maioria dos professores. Não porque o aluno esteja a ser mal educado, claro que não, mas sim porque se prepara para, educadamente (o que desarma o professor), exercer o seu espírito crítico adolescente e pôr em causa o que lhe é ensinado.

O aluno, esse, encontra todas as vantagens: primeiro, faz parar a aula , corta o fio do raciocínio e estanca o discurso do professor; depois, talvez consiga desviar a atenção geral para outro qualquer tema, mais do seu agrado; finalmente, obriga o professor a gastar o precioso/tedioso tempo de aula.

Claro que muitas vezes, quase diria a maioria das vezes, os alunos colocam questões interessantes. Mas as perguntas mais pertinentes surgem, em geral, repentinamente, iluminam os olhos e as faces dos alunos mais concentrados e brotam espontaneamente, sem introduções, sem delongas, sem pedir licença. E são quase invariavelmente bem acolhidas pelos professores, porque constituem um contributo importante para a aula, dilatando o campo de aplicações da matéria ensinada, dela extraindo conclusões ou contribuindo decisivamente para esclarecer dúvidas de cuja existência o professor nem se iria aperceber.

Também são importantes porque muitos alunos só sentem que de facto o professor se lhes dirige quando o diálogo é fácil, mesmo rotineiro, entre o professor e os alunos da turma.

Só quando um aluno é capaz de seguir o raciocínio do professor e traduzi-lo ou aplicá-lo é que alguns dos outros alunos tentam também entendê-lo.

Mas a introdução “Professora, posso fazer uma pergunta?” não prenuncia nada do que acima se descreve, antes uma pausa mais ou menos prolongada na aula, algum caos e barulho, enfim, algo de menos agradável para o professor, mesmo se tiver a sorte de saber a resposta.

Então, como responder?

Muitos docentes despacham a questão dizendo algo como: “Sim, senhor, acabaste mesmo de a fazer, agora vamos continuar a aula.”

Mas é um truque, um subterfúgio que não convence nem satisfaz ninguém.

Outros professores respiram fundo e lá convidam o aluno: “Ok, diz lá!”

Estes últimos, dependendo da resposta que derem, vão ser considerados estúpidos ou passar o resto do ano lectivo a responder às mais diversas questões sobre todos e quaisquer assuntos.

Não é fácil encontrar a melhor resposta, nem ninguém tem respostas infalíveis. Talvez o melhor seja condicionar um pouco o aluno, tentando ao mesmo tempo que dar-lhe um incentivo, devolver o seu desafio e envolver o resto da turma: “Podes fazer a tua pergunta, mas se ninguém aqui souber a resposta, terás de ir pesquisar até a descobrir para a trazeres, para todos ficarmos a saber.”

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