o liceu rainha d. amélia & o palácio dos condes da ribeira grande

No ano 2000 era esperado que algo espectacular se passasse no mundo, mas eu só me apercebi anos mais tarde de que realmente tinha sido um ano extraordinário. Tinha entrado para a escola de que guardaria as melhores recordações de toda a minha vida escolar, que não foi calma: andei em cinco escolas diferentes, e pensava na altura que esta seria a última mudança até entrar na faculdade. Mas não foi isso que aconteceu…

No 7º ano entrei para a Escola Secundária Rainha D. Amélia, conhecida simplesmente como “o Rainha”, onde o artigo masculino é ainda uma reminiscência da antiga designação de liceu. A escola ocupava então o Palácio dos Condes da Ribeira Grande, na Junqueira.

Palácio dos Condes da Ribeira Grande - Rua da Junqueira, nº 66

O Palácio foi construído no início do século XVIII pelos marqueses de Nisa, e mantém ainda a sua fachada original, parte dos jardins, e uma capela dedicada a Nossa Senhora do Carmo. A capela, assim como algumas outras zonas do Palácio, nomeadamente uma escadaria lindíssima, estavam interditas aos alunos, umas porque eram perigosas devido ao seu estado de degradação, e outras numa tentativa de preservar o que restava de alguns frescos nas paredes, azulejaria, mobiliário, etc. No entanto, se pedíssemos com  jeitinho para visitar as zonas proibidas (e que suscitavam a maior curiosidade!), lá se abriam algumas portas para irmos dar uma vista de olhos com alguém a supervisionar.

Capela de Nª Srª do Carmo

Capela de Nª Srª do Carmo

Capela de Nª Srª do Carmo

Escadaria - pormenor

Escadaria - pormenor

Escadaria - pormenor

No edifício do antigo Palácio havia várias salas de aula das mais variadas dimensões e estados de conservação, assim como todos os serviços da escola. O “átrio do relógio” dava acesso à sala de audiovisuais, à sala de professores, à linda biblioteca, à escadaria “proibida”, a um corredor, e ainda a uma escada para a área das ciências naturais, algumas salas de aula, e uma grande sala de desenho. Era o “coração” da escola.

Átrio do Relógio

Átrio do Relógio

Biblioteca

Biblioteca

Sala de Professores

Sala de Desenho

Laboratório das Ciências Naturais

Neste edifício estava ainda a cantina (que era a antiga cavalariça) e o Conselho Directivo, os laboratórios de física e de química, a sala de geografia com o seu tecto abobadado do qual caía de vez em quando um pedaço de estuque (sempre em cima do mesmo colega!), outra sala de desenho, uma salinha da Associação de Estudantes, a papelaria, a recepção, e o bar.

Laboratório de Física

Sala de Aula

Laboratório de Química

Sala de Geografia

Sala de Geografia

Tudo isto se distribuía de forma mais ou menos aleatória pelos vários espaços do edifício, que incluíam corredores estreitíssimos e escadas de madeira que galgávamos a correr, um belo átrio renovado e outro que não era mais do que um dos antigos salões do palácio (que conduzia às escadas que por sua vez conduziam ao laboratório de química!), e passagens “secretas” que ligavam zonas que ainda hoje não consigo perceber como é que, espacialmente, podiam estar ligadas.

Porta da Cantina

Entrada da Cantina

Bufete

Bufete

Lembro-me de tantos episódios passados nestes espaços, tantas correrias e brincadeiras, de dissecarmos um rim mal-cheiroso no laboratório de ciências-naturais, de estudarmos a evolução do homem na sala G2 e do meu trabalho sobre a Grécia antiga para o qual a minha mãe me levou à Embaixada para eu pedir informações (voltei cheia de folhetos turísticos e com um livro recheado de fotografias que ainda hoje guardo). Recordo-me de estarmos a acertar equações químicas no quadro duma sala que encontrámos vazia e aberta, da electrólise do cloreto de cobre no laboratório de química, dos meus desenhos geométricos com pontos de fuga e desenhos livres de afias, borrachas e folhas de árvore. Do trabalho de Inglês sobre uma personalidade que nos inspirasse (e eu escolhi o rato Mickey!?), e da composição de Português em que tínhamos de colar uma fotografia de quando éramos (mais) pequenos no meio da folha e escrever sobre aquela época, e do trabalho sobre a A Inaudita Guerra da Avenida Gago Coutinho para o qual fomos tirar fotografias a e com polícias da esquadra de Belém! E de ir a correr pelo corredor fora e na esquina ir contra a barriga dum aluno bem mais velho que ficou sem saber de onde é que eu tinha aparecido.

Corredor

Átrio de entrada da escola

Fresco - pormenor

Zona de passagem - Salão

O pátio da escola tinha ainda, quase na sua totalidade, o pavimento original de calçada portuguesa, e consistia nos jardins do palácio. Com um canteiro circular no meio, era enorme e amplo, sem ter sequer espaços reservados para campos de jogos, como nas escolas tradicionais. Mas claro que isso não era impedimento para que todos soubéssemos quais eram as áreas, delimitadas por linhas imaginárias, reservadas a cada actividade do Recreio.

Pátio

Pátio - árvore gigante e dodecaedro

Na periferia do pátio havia três pavilhões: dois pré-fabricados com salas de aula (as “G’s” no pavilhão do fundo, onde a minha turma tinha grande parte das aulas no 7º ano, e as “P’s” no pavilhão à direita, onde estávamos sediados no 8º ano), e o grande pavilhão do ginásio.

Pátio e pavilhão do ginásio

Na altura tudo me parecia perfeito. A sala de geografia, que na verdade estava com um aspecto completamente degradado, na minha memória pincelada de magia era um grande salão lindíssimo. Onde era a biblioteca, eu via um salão onde os donos do palácio davam bailes para os seus amigos nobres. A “cantina” estava sempre a receber os cavalos dos convidados e pela “escadaria proibida” subiam as damas com os seus grandes vestidos de folhos.

No entanto, passado dois anos de lá entrar, o Ministério da Educação deliberou que a Escola Secundária Rainha D. Amélia, antigo Liceu Rainha D. Amélia, deveria agora chamar-se “Escola Secundária com 3º ciclo do Ensino Básico Rainha Dona Amélia”, e que tinha de ir habitar as instalações de outra escola com a qual se ia fundir: a Escola Secundária Ferreira Borges, umas ruas mais acima, e que era uma escola comercial construída no Estado Novo. Os dias de palácios e princesas, explorações arqueológicas e saídas à socapa à hora de almoço para ir comprar gomas, acabaram aí.

a alfacinha em 1908

Na edição de 21 de Setembro de 1908 da Illustração Portugueza há um artigo delicioso, chamado “A Alfacinha” que descreve o dia-a-dia da mulher lisboeta na altura. Foi estrito por A. Bandeira e ilustrado por Arnaldo Ressano.

Como “A Alfacinha” é também o nome deste blog, e como é também do dia-a-dia duma lisboeta que trata, e porque a minha época de exames acabou ontem às 21h00, deixo-vos esta pérola de cultura.

Pode encontrar-se aqui todas as edições da Illustração Portuguesa desse ano, e  esse número em particular aqui. Chamo a atenção para os anúncios da primeira página.

tsunami

A minha família estava na praia, numa língua de terra que era uma península muito estreita: havia uma estrada, e praia dos dois lados! A estrada subia uma colina e ligava a península à povoação .

A minha irmã decide ir comprar qualquer coisa ao bar da praia, e eu vou à água. Estou feliz, a nadar por ali, até que dou um mergulho e a única coisa que encontro é um montão de algas! Olho em volta, e o mar está todo a recuar, como vi na televisão que acontece durante a formação de uma onda de tsunami.

Aviso os meus pais e decidimos sair dali o mais depressa possível. Corremos para a estrada e vemos uma onda gigante a aproximar-se já da praia do outro lado da península. “Temos de ir lá para cima depressa!”, diz o meu pai, indicando o topo da colina. Mas a minha irmã continua no bar da praia, na fila para ser atendida, sem se aperceber de nada.

“Eu vou buscar a Jija, vão andando!”, digo eu, qual heroína da fita. Corro até ao bar e grito pela minha irmã, que olha para mim como quem diz “mas o que é que esta quer?”, provavelmente com um revirar de olhos que eu não consigo ver à distância. Nenhuma das pessoas que estão à volta parece aperceber-se do perigo. Aceno desesperadamente para a minha irmã vir ter comigo, e finalmente ela decide que não devo estar ali só para a chatear e aproxima-se. “Temos de ir a correr lá para cima, vem aí um tsunami!” e desatamos a correr, deixando as outras pessoas todas na ignorância do perigo que as espera…

Subimos a colina em grande correria, milagrosamente a inclinação não representa um esforço físico acrescido, e rapidamente nos juntamos aos nossos pais, que estão agachados, encostados a uma vedação, à espera do momento de se agarrarem a ela para não serem levados pelas águas. Juntamo-nos a eles.

Deito um último olhar à minha família e constato que os três tinham decidido que era melhor adoptar a forma de uma grande tartaruga terrestre. “Como vão agarrar-se à vedação assim, sem dedos?”, penso eu.

*Toca o despertador*

postais de paris

E quem se candidata a um postal de Paris trazido pessoalmente por mim?Acusem-se até Quinta-feira de manhã!

Prometo fotografias fresquinhas e quem sabe um post escrito de ?

(Só garanto postal aos 10 15 primeiros comentadores, que se cá em Lisboa custam sempre de 0,50€/cada para cima, imaginem lá! :P)

conversas de livros

Nos iba bien en nuestro nuevo hogar y tuve ocasión de conocer a un individuo que me ayudó mucho. Se trataba de un reverendo que impartía clases de Matemáticas y Física en la escuela. A primera vista parecía andar siempre por las nubes, pero era un hombre de una inteligencia que sólo podía compararse con la bondad que se esforzaba en ocultar tras una muy convincente personificación del científico loco del pueblo. Él me animó a estudiar a fondo y a descubrir las matemáticas. No es extraño que, tras unos años a su cargo, mi vocación por las ciencias se hiciese cada vez más clara. En principio quise seguir sus lasos y dedicarme a la enseñanza, pero el reverendo me soltó una reprimenda inmensa y me dijo que lo que tenía que hacer era ir a la universidad, estudiar Física y convertirme en el mejor ingeniero que hubiese pisado em país. O eso, o me retiraba la palabra en el acto.

El Príncipe de La Niebla, Carlos Ruiz Zafón

Substituía-se “reverendo” por “meu pai”, “retiraba la palabra” por “não te pago as propinas” e fica quase a história da minha vida. :P

Ler estas histórias “juvenis” de Zafón tem-se revelado a melhor surpresa literária dos últimos tempos. El Palacio de La Medianoche tem-se revelado delicioso, mesmo daqueles livros de comer à colherada e de andar na rua de livro aberto. Aliás, descobri que custa muito menos subir a Alameda quando vou distraída do esforço físico, apesar de ainda reparar naquele indivíduo que me veio pedir dinheiro duas vezes, alegadamente porque tinha o carro sem gasolina e não o conseguia tirar dali, com umas 10 horas de diferença.

E ainda a propósito de livros, hoje ao fim da tarde consegui dar um saltinho à Feira do Livro. Tantas tentações!

nostalgia

Esta mañana, mientras escribía al amanecer las últimas líneas de esta memoria, las primeras nieves del año han tendido su manto blanco frente a mi ventana y el recuerdo de Ben ha vuelto a mí como el eco de un susurro después de todos estos años. Le he imaginado recorriendo las turbulentas calles de Calcuta entre la multitud, entre mil historias desconocidas como la suya y, por primera vez, he comprendido que mi compañero, al igual que yo, ya es un hombre viejo y que su reloj está a punto de completar su círculo. Es tan extraño sentir cómo la vida se nos ha escapado de las manos…

El Palacio de la Medianoche, Carlos Ruiz Zafón

Há pessoas com quem estamos diariamente, com quem todos os dias falamos e partilhamos momentos importantes da nossa vida. Pessoas que nos conhecem muito bem, que chegam quase a perceber quem realmente somos, e a quem nós pensamos também conhecer.

Partilhamos com ela horas infinitas da nossa vida, até que um dia tudo acaba: mudamos de escola, deixamos de andar no inglês ou na guitarra, deixamos os escuteiros ou a natação, mudamos de emprego, de cidade, de país. Passa-se o tempo, mas sempre que nos lembramos dessas pessoas (sempre com a idade e a vida que tinham quando as deixámos) ainda sentimos que as conhecemos perfeitamente e que mais tarde ou mais cedo vamos reencontrá-las e retomar a amizade próxima que nos unia a elas.

Quando nos apercebemos, passaram-se anos, e a verdade é que não tornámos a ver, ou pelo menos a conviver, de novo com essas pessoas. Os melhores amigos da infância, os colegas de turma das várias escolas por onde passámos, alguns amigos de quem escolhemos afastar-nos… Todos aqueles que não pertnecem à minoria com quem mantivemos um contacto mais assíduo.

E é nessa altura que bate a nostalgia e nos apercebemos que os dias são longos mas os anos são curtos.

Ideia: Será por causa deste sentimento de “perda” que as pessoas parecem adorar “coleccionar” amigos no Facebook, mesmo pessoas com quem não falam há 10 ou 15 anos?

posso fazer uma pergunta?

Guest-post da minha mãe.

“Professora, posso fazer uma pergunta?”

Eis um momento difícil para a maioria dos professores. Não porque o aluno esteja a ser mal educado, claro que não, mas sim porque se prepara para, educadamente (o que desarma o professor), exercer o seu espírito crítico adolescente e pôr em causa o que lhe é ensinado.

O aluno, esse, encontra todas as vantagens: primeiro, faz parar a aula , corta o fio do raciocínio e estanca o discurso do professor; depois, talvez consiga desviar a atenção geral para outro qualquer tema, mais do seu agrado; finalmente, obriga o professor a gastar o precioso/tedioso tempo de aula.

Claro que muitas vezes, quase diria a maioria das vezes, os alunos colocam questões interessantes. Mas as perguntas mais pertinentes surgem, em geral, repentinamente, iluminam os olhos e as faces dos alunos mais concentrados e brotam espontaneamente, sem introduções, sem delongas, sem pedir licença. E são quase invariavelmente bem acolhidas pelos professores, porque constituem um contributo importante para a aula, dilatando o campo de aplicações da matéria ensinada, dela extraindo conclusões ou contribuindo decisivamente para esclarecer dúvidas de cuja existência o professor nem se iria aperceber.

Também são importantes porque muitos alunos só sentem que de facto o professor se lhes dirige quando o diálogo é fácil, mesmo rotineiro, entre o professor e os alunos da turma.

Só quando um aluno é capaz de seguir o raciocínio do professor e traduzi-lo ou aplicá-lo é que alguns dos outros alunos tentam também entendê-lo.

Mas a introdução “Professora, posso fazer uma pergunta?” não prenuncia nada do que acima se descreve, antes uma pausa mais ou menos prolongada na aula, algum caos e barulho, enfim, algo de menos agradável para o professor, mesmo se tiver a sorte de saber a resposta.

Então, como responder?

Muitos docentes despacham a questão dizendo algo como: “Sim, senhor, acabaste mesmo de a fazer, agora vamos continuar a aula.”

Mas é um truque, um subterfúgio que não convence nem satisfaz ninguém.

Outros professores respiram fundo e lá convidam o aluno: “Ok, diz lá!”

Estes últimos, dependendo da resposta que derem, vão ser considerados estúpidos ou passar o resto do ano lectivo a responder às mais diversas questões sobre todos e quaisquer assuntos.

Não é fácil encontrar a melhor resposta, nem ninguém tem respostas infalíveis. Talvez o melhor seja condicionar um pouco o aluno, tentando ao mesmo tempo que dar-lhe um incentivo, devolver o seu desafio e envolver o resto da turma: “Podes fazer a tua pergunta, mas se ninguém aqui souber a resposta, terás de ir pesquisar até a descobrir para a trazeres, para todos ficarmos a saber.”

O desabafo duma professora

Guest-post da minha mãe.

Trabalho para o mesmo patrão há mais de 20 anos. Sou professora.

Na altura em que comecei, havia algumas vantagens e desvantagens na profissão.

Em primeiro lugar, o trabalho garantia-me uma boa dose de autonomia. Confiavam‑me uma tarefa de responsabilidade, mas quase metade do meu horário poderia ser cumprido fora do local de trabalho, no momento e ao ritmo que eu determinasse. Mesmo na parte a cumprir no local, eu desempenharia as minhas funções sem interferência nem supervisão de ninguém.

No entanto, a minha competência podia, a qualquer momento, ser posta em cheque. De facto era-o, constantemente, pois os jovens são naturalmente críticos e têm uma memória terrível, detectando todas as pequenas incoerências que surgem quando se tem de simplificar conceitos complexos.

Por outro lado, a qualidade do meu trabalho era sempre fácil de avaliar pelos materiais de apoio às aulas que eu produzia, pelas provas de avaliação que elaborava e aplicava, pelos conhecimentos que os meus alunos mostravam quando, em anos seguintes, passavam a ser alunos de colegas. E periodicamente eu tinha de declarar, publicamente, qual a matéria leccionada e, se me atrasasse em relação aos colegas, teria de explicar porquê.

Em certas alturas do ano, havia mais trabalho e não chegavam as horas de um horário normal de trabalho. Noutras alturas, corriam as semanas de rotina complexa sem que déssemos por isso.

Quando comecei, o meu patrão prometeu-me que depois de 36 anos de trabalho (mais de uma vida, para quem tem 23 de idade) eu teria direito ao descanso da reforma. Entretanto, o meu horário inicial de 22 horas de aulas seria progressivamente reduzido, sendo a primeira redução de 2 horas logo após 5 anos de trabalho.

Se exercesse outros cargos para além de leccionar, por exemplo Director de Turma, coordenador pedagógico de uma disciplina (Delegado de Grupo) ou Director de Instalações (responsável por um espaço, como um ginásio ou um laboratório) seriam acompanhados da redução de algumas dessas horas.

Claro que, ao contrário dos outros Senhores Doutores do país, eu não teria um gabinete alcatifado e com ar condicionado onde trabalhar em sossego, nem uma secretária com todos os meus materiais de trabalho onde me refugiar durante as horas, sempre certas, do meu horário. Pelo contrário, teria de trabalhar na sala que me calhasse, provavelmente quase sempre de pé, cumprindo, em cada ano – em cada altura do ano – o horário que me fosse distribuído e transportando comigo todos os materiais necessários, os quais pagaria do meu bolso. E não poderia ausentar-me por cinco minutos para ir tomar café…

Teria de cumprir o meu horário com rigor, todos os dias, pois qualquer atraso superior a 5 minutos na chegada à sala de aula poderia resultar numa falta. E isto, 4, 5 ou 6 vezes por dia. Todos sabemos quanto custa cumprir, um dia, um horário rigoroso… Os alunos dos Exames Nacionais têm uma tolerância de 15 minutos exactamente porque o exame tem de começar à hora certa!

Em contrapartida, os professores tinham alguns dias extra de folga no Natal, no Carnaval e na Páscoa, para recuperarem desta rotina desgastante.

E quando eu comecei a trabalhar estava em vigor o célebre “artigo 4.º” que nos permitia faltar duas vezes por mês por conta do período de férias, o qual, é claro, tem de ser gozado pelos professores durante o Verão e nunca noutra altura.

Nesse tempo, o meu patrão fazia contas simples: considerava-se que cada hora de aula representava, para o professor, outra meia hora de trabalho de planeamento e preparação (incluindo avaliação). Isto totalizava 33 horas de trabalho por semana, às quais se adicionavam as despendidas em reuniões de professores, para aferir critérios, etc. Para o meu patrão, o horário de 22 horas de aulas semanais equivalia portanto às 35 horas semanais dos outros Senhores Doutores do país.

Entretanto, para o meu patrão 1 hora de aula tinha de facto 50 minutos, pois havia 10 minutos de intervalo para os professores arrumarem a suas coisas, abandonarem a sala, irem à sala de professores, à casa de banho, tomar um café, resolver qualquer pequeno problema, reunir o material e comparecer na sala para a aula seguinte.

Mas estes tempos já lá vão. O meu patrão também.

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Bilhetes nas aulas

Escrito pela minha mãe há mais de seis anos

“Gosto de Física.

Gosto de fórmulas.

Gosto de amarelo.

Gosto de molduras.

Gosto de dizer ai meu deus do céu.

Gosto de ganchos verdes.

Gosto de testes de recuperação.”

Assim rezava a folha amarrotada que provocava muitos risos ao circular entre os meus alunos do 12.° ano. Verdade seja dita: já fizeram 8 (!) testes este período…

Filme: “Never Let Me Go”

Never Let Me Go (ou Nunca me Deixes em português) acabou de estrear em Portugal. É um filme de 2010 do realizador Mark Romanek e as três personagens principais, Kathy, Tommy e Ruth, são protagonizadas, respectivamente, por Carey Mulligan, Andrew Garfield e Keira Knightley.

O pequeno resumo que li antes de ver o filme não deixava adivinhar nem de perto a verdadeira história. No IMDB dizia apenas:

As children, Ruth, Kathy and Tommy, spend their childhood at a seemingly idyllic English boarding school. As they grow into young adults, they find that they have to come to terms with the strength of the love they feel for each other, while preparing themselves for the haunting reality that awaits them.

Na verdade a história tem muito que se lhe diga e deixa-nos a pensar na realidade paralela que nos apresenta. No fim, fiquei a pensar em duas coisas distintas.

Primeiro, seria mesmo possível manter uma sociedade como a apresentada? De certo haveria inúmeras tentativas no sentido de sabotar um sistema assim! Como conseguiriam evitá-lo?

E em segundo, ninguém sabe ao certo quanto tempo lhe resta, faz todo o sentido a máxima de aproveitar cada momento pois a vida é curta. E infelizmente esquecemo-nos disso tantas vezes e enchemos a nossa vida com preocupações inúteis.

Não quero estragar a história a ninguém, por isso não vou alongar-me. Aconselho mesmo a verem o filme, ao qual eu daria a nota 7 em 10 na minha escala (que nada tem a ver com qualidade de realização, banda sonora ou interpretação, apenas com a história e com o grau com que me impressionou).

O vento soprava, forte, batendo-lhe na cara em rajadas violentas e desalinhando-lhe o cabelo. Continuou a andar, o casaco fechado até ao pescoço e os braços cruzados numa determinação contra a ventania, o frio e a fome que começava a sentir.
Na rua não se via ninguém, para além do ocasional automóvel que passava, no seu regresso a casa. Dum lado e de outro havia uma fila contínua de carros estacionados, muitos em cima do passeio, que a obrigavam a desviar-se e a contorná-los pela estrada.

De pé, com um olho nas outras e o outro na rua para ver se lá vinha o autocarro, contava-lhes como tinha sido quando tinha ido ao tribunal por causa do marido lhe bater. Já lhe batia há muito tempo, mas não era para a matar! Não, isso, ele, não! Só às vezes é que ela ficava a precisar duns curativos e ia ali ao São Francisco ou ao Centro de Saúde.

Até tinha dito à senhora juíza que se ele quisesse, ele tinha a força de vontade para perder aquele hábito, porque ele há 10 anos disse que ia deixar de fumar e nunca mais pegou num cigarro. Foi burra porque até parecia que o estava a defender!

Se não se divorciava? Ah, não tem dinheiro para isso, só um dos papéis que é preciso assinar custa 500 euros, fora o resto!

O pai também costumava bater na mãe, quando estava bêbado! Ela às vezes tentava impedir e punha-se à frente da mãe… olha, levavam as duas! Mas o marido não bebe: uma, duas cervejas, não pega em mais.

Tinha-se casado com ele porque tinha engravidado. E já não era nenhuma criança, teve o filho com 30, mas caiu na asneira. Quando lhe disse, foram casar-se. À porta do registo civil ele não queria entrar, mas ela também chegou para ele, disse-lhe que ou se casavam ou não havia de ser a primeira que era deixada com um filho nos braços. Ora toma!

Agora herdou a casita lá da terra, mais uns terrenos… Se calhar vai vendê-los. Porque não fica com a casa lá da terra e vai viver para lá? Ai, isso não, que disparate! Ela e o marido compraram há uns anos o andar por baixo do deles, assim podiam ter um quarto para cada filho. Agora ela pode mudar-se lá para baixo, e pronto, ficam separados…

Hoje apetecia-me…

… ir correr;

… estar contigo;

… escrever qualquer coisa inspiradora;

… descobrir uma nova música preferida;

… rir até às lágrimas;

… dar um abraço enorme;

… brincar com um cachorro;

… comer um crepe quentinho num sítio bonito e em boa companhia;

… ir passear;

… perdoar(-me), ultrapassar, esquecer,  e recomeçar.

Não sei quando ouvi falar pela primeira vez deste autor, mas já há uns meses que andava com vontade de ler alguma coisa dele, por isso este Natal acrescentei os livros dele à lista de sugestões de presentes. E acabou por ser das mãos da tia G. que recebi um exemplar em Inglês do After Dark.

É um pequeno romance, de leitura leve e rápida. A história gira em torno de duas irmãs muito diferentes, separadas por caminhos diferentes. Tudo se passa numa noite, ora nas ruas da grande cidade, ora no quarto onde dorme profundamente Eri.

Não fiquei irremediavelmente apaixonada pela escrita nem pela história, nem com uma vontade urgente de ler mais obras do mesmo autor, se bem que gostava de dar uma olhadela ao seu What I Talk About When I Talk About Running. Murakami começou a correr aos 33 anos e nunca mais parou de correr longas distâncias.

“Of course, Eri was scared to death, too, I’m sure. Maybe even as scared as I was. She must have wanted to scream and cry. I mean, she was just a second-grader, after all. But she stayed calm. She probably decided on the spot that she was going to be strong. She made up her mind that she would have to be the strong big sister for my sake. And the whole time she kept whispering in my ear stuff like ‘We’re gonna be okay. There’s nothing to be afraid of. I’m here with you, and somebody’s gonna come and help soon.’ She sounded totally calm. Like a grown-up. She even sang me songs (…). I entrusted myself completely to her arms. The two of us became one: there were no gaps between us. We even shared a single heartbeat. Then suddenly the lights came on, and the lift shook again and started to move.”

 

After Dark, Haruki Murakami

A paisagem era a mesma de sempre, desfilava à minha frente todos os dias, sempre igual e sempre diferente: umas vezes cinzenta e coberta de nuvens carregadas, outras vezes clara e brilhante sob o inconfundível sol da manhã lisboeta, outras vezes pintada pelo vermelho derramado pelo sol baixo do fim da tarde. E, no entanto, parecia que a olhava pela primeira vez. Pela primeira vez me apercebia realmente das cores das casas, do azul do céu, da silhueta da ponte e da textura da superfície do rio, arrepiada pela brisa. Aquele rio, companheiro inseparável da cidade, sempre prostrado aos seus pés, ao pé do qual sempre vivi e para o qual todos os dias olho e vejo coisas diferentes.

Há dias assim, em que acordamos para ver o mundo de sempre de maneira diferente.

Hoje terminei um daqueles livros de que me vou lembrar muitas vezes nos próximos tempos, tenho a certeza. Trata-se do The Book Thief (A Rapariga que Roubava Livros, em português), escrito por Markus Zusak.

A história, passada na Alemanha Nazi, conta a história de uma menina cuja vida é marcada pela perda (tal como seria de esperar pelo cenário), mas também pela poderosa descoberta das palavras, que lhe são inesperadamente apresentadas na sua casa de acolhimento, na rua do Paraíso, num bairro paupérrimo duma localidade nos arredores de Munique. Roubar livros torna-se cedo a sua especialidade…

Fiquei curiosa acerca da biografia deste autor e fiz uma pequena pesquisa sobre ele. Descobri que nasceu em Sydney a 1 de Janeiro de 1975, filho de pai Austríaco e mãe Alemã e é o mais novo de 4 irmãos.

How about a kiss, Saumensch?

Apresentação de George R. R. Martin sobre as Crónicas de Gelo e de Fogo

Esta terça-feira, dia 1 de Julho, pelas 18h30, eu e a Sarss fomos assistir à apresentação que George R. R. Martin em pessoa deu sobre as suas Crónicas de Gelo e Fogo no El Corte Inglés.

Felizmente chegámos cedo e tivemos sorte de apanhar dois confortáveis lugares na terceira fila de cadeiras. Ao longo da parede do la

do direito da sala estendia-se uma outra fila, mas esta de pessoas que aguardavam ansiosamente para aproveitar o lançamento exclusivo de A Tormenta de Espadas que só vai chegar às lojas dia 11 de Agosto.

Este volume é a primeira parte do livro A Storm of Swords, que vai ser (tal como o primeiro livro já o tinha sido) desdobrado em dois volumes diferentes na edição portuguesa.

Havia 80 lugares sentados na sala, mas no fim aparecerem cerca de 200 pessoas! Sentia-se a excitação no ar e vários fãs com as mãos cheias de livros, vários volumes das Crónicas, com esperança de os ver autografados pelo maior autor de Fantasia da actualidade no final da tarde.

George R. R. Martin entrou na sala pelo fundo e atravessou o corredor entre os dois grupos de cadeiras até lá à frente… Flashes começam a disparar. O primeiro comentário, bem audível, de uma rapariga atrás de nós foi “Que fofo!”. O que vale é que, como o próprio confirmou um pouco depois, Martin não percebe uma palavra de Português.

Apesar do despropósito do comentário, a rapariga até tinha razão. Vejamos a descrição que a Sarss fez do autor no momento:

Com barba à Pai Natal e os óculos “fundo-de-garrafa” a transformarem os seus olhos em pequenos pontos, cabelo a sair do chapéu em caracóis. Boné à marinheiro e roupa simples e preta com um ar de eremita desleixado com um grande sentido de humor.

Durante a apresentação Martin referiu a sua carreira enquanto guionista e escritor de Ficção Científica, e explicou como em 1991 lhe veio ao espírito uma cena tão vívida que ele teve de a passar para o papel. E assim escreveu o 1º capítulo de A Game of Thrones, aquele em que Bran e os irmãos regressam com o pai duma cena violenta como a decapitação de uma pessoa, e encontram na neve uma ninhada de lobos gigantes…

Quando lhe perguntaram o que achava de ter sido já várias vezes comparado com Tolkien, Martin respondeu com bastante humildade, revelando-se um admirador de longa data da obra de Tolkien, chegando a dizer “Tolkien was really unfair! He set a standard that no one can achieve!“. Disse ainda que para além de todas as diferenças entre a sua obra e a de Tolkien (e afirma peremptoriamente que não quer passar 60 anos a trabalhar na sua obra, a criar todos os pormenores, genealogias, e mesmo dois idiomas completos, como Tolkien fez).

Foi-lhe pedido que explicasse a razão pela qual, apesar dos seus livros estarem inseridos na categoria “Fantasia”, era possível chegar ao fim de A Game of Thrones sem quase dar por ela (à parte do último capítulo, onde nascem dragões, e poucas outras coisas). A isto Martin respondeu com uma pequena história:

No primeiro ano de faculdade, Martin e os colegas com quem vivia decidiram encomendar uma pizza. Os colegas encomendaram uma “garbage pizza”, uma pizza com todos os ingredientes e mais alguns. No meio dos ingredientes encontrava-se uma ou outra anchova, coisa que Martin nunca provara e adorou. Na vez seguinte em que quis encomendar uma pizza só para si, pediu uma pizza de anchovas “and it was really a bad idea!“, como ele disse. A pizza tinha tantas anchovas que era enjoativa e parecia uma “salt pizza”.

Contada esta história, Martin fez a analogia entre anchovas e Fantasia: numa história, a Fantasia, assim como a Magia, fica bem em pequenas quantidades, no meio de muitos outros ingredientes. Agora, quando as histórias se baseiam somente na Fantasia e na Magia, correm o risco de ficar enjoativas: “A little is great, too much can ruin a pizza“.

Uma resposta que todos queríamos ouvir era acerca da sua personagem preferida. Martin começou por afirmar “I love all my viewpoint characters“, ao que acrescentou “The villain is the hero from the other side“, referindo-se a personagens como os gémeos Jaime e Cersei Lannister. Por fim acabou por confessar que a personagem com quem mais se identifica é com Tyrion Lannister (“I’m taller, though“), cujos capítulos são os mais fáceis de escrever.

A propósito da crueldade demonstrada para com as suas personagens, Martin responde: “It’s not soccer! It’s a question of honesty. (…) It’s war, and war brings death and grief! I want you to feel as you were there, I want my readers to grief my characters.”

Quanto ao final da história, Martin diz “I know the end of the story, but not every twist and turn on the journey“.

Estas foram algumas das muitas coisas referidas nesta apresentação. Fala-se já duma adaptação à televisão das Crónicas de Gelo e Fogo, sob a forma de uma série, com 12 horas para cada livro. Apesar de já haver dois guiões escritos, ainda nada está definido.

No final da apresentação, George R. R. Martin, depois de sugerir uma visita a este site criado por fãs Irlandeses, leu o Prólogo do livro que está agora prestes a acabar, A Dance With Dragons.

Referências e fotografias a esta apresentação de George R. R. Martin:

http://grrm.livejournal.com/

http://www.playkingdoms.com/temp/martin/martin.html

http://dn.sapo.pt/2008/07/02/centrais/o_mundo_criei_vezes_dominame.html

http://corusca.ismysite.co.uk/wordpress/2008/07/02/george-r-r-martin-in-lisbon/

Programa das festas” – ainda é possível ver o autor hoje no Porto, ou no Sábado, de novo em Lisboa

Every reader finds himself. The writer’s work is merely a kind of optical instrument that makes it possible for the reader to discern what, without this book, he would perhaps never have seen in himself.

Marcel Proust

expectativa

s. f.,

esperança baseada em supostos direitos, probabilidades ou promessas;

esperança;

probabilidade;

expectação.

pensamento

s. m.,

acto ou faculdade de pensar;

acto de inteligência;

ideia;

espírito;

fantasia, imaginação;

reflexão;

meditação;

máxima;

sentença.

tarde

do Lat. tarde, lentamente
adv.,

tardiamente;

depois de passar o tempo próprio, conveniente ou ajustado;

fora de tempo;

perto da noite;

s. f.,

tempo entre o meio-dia e o anoitecer.

sonho

do Lat. somniu

s. m.,

conjunto de ideias e imagens mais ou menos confusas e disparatadas, que se apresentam ao espírito durante o sono;

utopia;

ficção;

fantasia;

visão;

aspiração;

Culin.,

(no pl. ) bolos muito fofos de farinha e ovos, fritos em azeite e passados em calda de açúcar.

apreensão

do Lat. apprehensione

s. f.,

acto de tomar ou apresar o que não é permitido possuir;

desassossego de espírito, receio, preocupação;

cisma;

percepção, compreensão.