conversas na paragem xi

Um casal idoso.

Ela: “estou tão contente contigo…”
Ele: “porquê?”
Ela: “por causa da análise do colesterol… Estava tão preocupada”

Ele dá-lhe a mão e sorri.

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sem vergonhas

“Tão mas tu não tens vergonha de ir a cantar no meio do comboio?”

“Eu não! Vergonha é róbar e não conseguir fugir!”

conversas na paragem x

*tinininini tinininininini!*

– Estou, F.? Sim, já estou a caminho do tribunal. Olha… O que é que é melhor eu dizer? Que era para consumo, não é?

*longo silêncio enquanto respondem do outro lado*

– Pois… Eu vou contar como aconteceu: a minha mãe estava doente e fui eu pôr o R. à escola. Quando estava a voltar tinha fome e fui ao supermercado comprar um iogurte. Mas olhei para os queijos e não consegui resistir…

conversas na paragem viii

Srª A: “Então e a F., ela nessa altura teve um bebé e pô-lo no lixo…”

Srª B: “O quê??” [ar chocado]

 Srª A: ” Ahah, sempre que eu digo isto as pessoas ficam assim! Mas foi! Ela teve um filho e foi pô-lo no balde do lixo! Uma vizinha ia depois despejar o lixo e antes de o deitar ouviu “miau miau”, parecia um gato. Ela pensou que fosse um gato. Estava dentro dum saco.”

Srª B: “Ah, então e depois?”

Srª A: “Depois veio a polícia, e o bebé foi para o hospital, mas estava bom. E ela ficou com ele, foram perguntar-lhe se queria o bebé de volta, e não sei quê. Ela ficou com ele, retiraram todas as queixas e pronto. Ela ainda disse ao agente que já tinha 8 filhos e tinha visto que não podia ficar com aquele…”

Srª B: “Então mas se já tem 8 porque continua a fazer… Ahahah! Hihihi!”

Srª A: “Ahahah!”

Srª B: “Mas 8 ou 9, também já nem devia fazer diferença!”

Srª A: “Pois não! Ele já tem 13 anos, agora. Aiii… Já estou farta de ter de comprar leite, já disse ao meu sobrinho que qualquer dia compro uma vaca e ponho na varanda!

conversas (mudas) na paragem vii

blackinc.photoshelter.com

Estava a olhar em frente, para o vazio, cansada e a reflectir no meu dia.

O dia em que revi finalmente o Jules, depois de meses sem contacto, que me reuni com duas simpáticas “geek girls” para organizarmos as coisas para um evento na próxima semana, que fiz um convite a um possível orador para uma apresentação nesse evento.

Absorta nos meus pensamentos, não estava realmente focada no que os meus olhos viam, até que um movimento estranho do objecto para o qual estava a olhar me faz despertar. O homem dentro do eléctrico, que estava parado à minha frente, leva o objecto aos lábios e dá-lhe dois beijinhos, piscando-me depois o olho e sorrindo com ar matreiro.

Foco então o objecto e percebo que estive um minuto a contemplar uma garrafa de vinho cuidadosamente embrulhada num saco de plástico que o homem segurava com todo o cuidado com que se segura um objecto valioso. O que terá pensado? Que eu estava a sonhar com um copinho ao fim do dia para descontrair?

Não pude evitar sorrir-lhe de volta e fazer-lhe um 

terapia anti-stress: bolachas de manteiga

Material necessário

  • 460g de farinha
  • 230g de manteiga (convém tirar do frigorífico previamente para ser mais fácil incorporar na massa)
  • 230g de açúcar
  • 2 ovos inteiros
  • rolo da massa
  • vítimas (sugere-se usar amigas que gostem de doces, a quem se possa oferecer uma caixinha de bolachas no fim)
Junta-se tudo e amassa-se muito bem com as mãos – esta é a parte em que se liberta a energia estagnada e acumulada durante a semana.

Deita-se um pouco de farinha na tábua e estende-se a massa muito fina – é quase possível ver o stress a ir-se embora enquanto esticamos a massa com o rolo, delicadamente, esquecendo todos os problemas. Apenas interessa aquela massa bem uniforme e fininha.

Cortam-se as bolachas e vão ao forno em tabuleiro untado com manteiga (ou coberto de papel vegetal se forem preguiçosos como eu) – o cheirinho a bolachas acabadinhas de cozer que começa a invadir a casa é mais relaxante que o aroma a lavanda de qualquer spa de luxo.

Embrulhar e oferecer – todos sabem que oferecer coisas deliciosas é super relaxante. :)

conversas na paragem VI

Num dos chuvosos e escuros fins de tarde da semana passada, na paragem cheia de gente do Cais do Sodré, pára o eléctrico 15 e uma senhora na rua pede para falar com o condutor. Queria pedir-lhe autorização para percorrer o interior do eléctrico sem bilhete, e que ele esperasse que ela saísse antes de arrancar. O marido, com Alzheimer, tinha entrado na Praça da Figueira e nunca mais tinha dado notícias.

Passada revista ao eléctrico, a senhora sai para a noite gélida, sozinha no meio de tanta gente, agarrada ao telemóvel e com um ar desesperado.

Fiquei a fazer figas para que tudo lhe corresse bem.